Identidade além dos espelhos.

Hoje quero conversar aqui sobre identidade e sobre os grupos, começar o assunto.


Indo buscar minha filha na escola, no caminho me vieram algumas ideias e entre elas, de pronto, Narciso, aquele que era filho de deuses mitológicos e logo ao nascer, seus pais já foram avisados de que teria uma vida longa, desde que não se apegasse à sua própria imagem. 

Pensando em casa sobre o assunto, me veio também a lembrança o trecho de Sampa, do Caetano Veloso:

Quando eu te encarei frente a frente não vi o meu rosto
Chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto, mau gosto
É que Narciso acha feio o que não é espelho"


E o livro "Alice através do espelho e o que ela encontrou por lá".:

"No instante seguinte Alice atravessara o espelho e saltara lepidamente na sala da Casa de Espelhos. A primeira coisa que fez foi verificar se havia fogo na lareira, e ficou muito satisfeita ao constatar que havia um fogo de verdade, crepitando tão alegremente quanto o que deixara para trás. "Assim vou ficar tão aquecida aqui quanto estava lá na sala", pensou; "ou mais aquecida, porque aqui não vai haver ninguém mandando que eu me afaste do fogo. Oh, como vai ser engraçado quando me virem aqui, através do espelho , e não puderem me alcançar!)"

Em junho de 2014 cortei meus cabelos curtinhos, com a intenção de tirar toda a progressiva e deixar crescer saudável. Mas até então eu não sabia se voltaria a relaxar ou se deixaria ele ao natural.

Em outubro de 2014 fui madrinha de casamento, junto com meu esposo, de um casal de amigos, e coloquei megahair cacheado, pra fazer um penteado interessante, bonito.

Ao longo dessa época, pesquisei diversos tratamentos para cabelos crespos naturais e minha vontade de deixá-lo natural foi aumentando. 

Mas nunca usei o cabelo sem química, desde a adolescência, e sempre gostei dele assim, ou me acostumei. (na infância, cresci de trancinhas).

E eu estava decidida, até o dia que tirei o megahair, no começo de janeiro desse ano...no primeiro dia amei a maciez, vi o quanto ele cresceu, mas não me reconheci. 

No segundo dia voltei ao cabelo que tive durante a vida e que me custou conquistar, ideologicamente falando, porque minha mãe achava uma coisa, eu queria outra (isso é adolescência, tá?! Só pra contextualizar.

Comecei a alisar pela praticidade, simplesmente, porque desde sempre saia de manhã de casa, pra estudar, trabalhar e fazer cursos e voltava à noite. 
Não comecei a relaxar pra me espelhar ou seguir ninguém e nenhuma moda. (Quando eu tinha uns 17 anos, fiz permanente afro, mas durou pouco).

Contando isso para vocês, eu queria exatamente falar sobre o espelhamento feito baseado em celebridades, pessoas de representatividade, de etnias e grupos ideológicos (cabelo cacheado, moicano, cabelo loiro etc etc, apenas alguns dos infinitos exemplos)

Há, como eu ia dizendo, na internet, pessoas que levam grupos de pessoas á adotarem certo tipo de visual, de cabelo.

Mas ai que está...vale a pena seguir algo que, teoricamente, se encaixa na sua etnia, no seu biotipo, no lugar que você mora, se você não se "vê" ali?

Eu, tanto acredito que não vale PRA MIM essa "nova regra", que já voltei ao cabelo que eu me reconheço (o período que eu estava pra tirar o mega, juro, até fiquei angustiada uns dias, porque desde o início da progressiva, tinha 1 ano e meio que eu não estava eu...rs)

Na lenda de Narciso, ele estava "se curtindo" tanto que não via mais nada além da sua imagem, que pra ele era a perfeita e ideal.

Como na música do Caetano, existem os grupos que não aceitam os diferentes, acha feio aquele que não se espelha em si.

Já Alice, caindo na sala dos espelhos, não estava preocupada com seus reflexos, mas com a proteção que o lugar proporcionava e estava feliz e bem com suas próprias convicções.

Nas três histórias podemos ter uma pequena idéia de como cada um lida consigo mesmo e como mantém relacionamento com a sua identidade.

Não adianta se colocar numa "caixinha" de estereótipo, sem sentir-se bem, mas também não adianta deixar de seguir o que se é de verdade, mesmo que seja a semelhança com diversos grupos, se for se sentir um peixe fora d'água.

Sou sempre, sempre, á favor do auto-conhecimento e do respeito próprio e pelo outro. 

Bjo, Ci


Comentários

  1. Eu assumi meu crespo há uns 3 anos e, foi um pouco complicado, porém eu estava certa do que queria e não vejo mais na sofridão de química, pra mim era a morte, passei anos reclusa em mim, sem direção, posicionamento enfim minha auto estima era 0, hoje sou outra, mas tudo que disse ocorreu comigo e com os demais é diferente, eu sei e compreendo isso, tanto que digo que minha aceitação capilar veio no meu momento, na minha hora e, digo aos que me perguntam sobre eu sempre falo, vc tem que querer, vc tem que se aceitar, cabelo crespo não é moda, é sua ID e se vc se vê e gosta de ser crespa, ótimo, se não ok, vc não deixará de ser negra, poderosa ou sei lá o que te digam se vc alisar ou relaxar, temos que nos unir em prol da beleza da mulher e das mulheres negras tbm... escrevi tanto rs bjin

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