#VamosPensarSobreBeleza Elle Brasil: Pincéis que curam

"Kiyomi Hayashi deu adeus a uma antiga percepção de si por meio da maquiagem

Quando se fala de maquiagem, Kiyomi Hayashi acredita muito mais em seu poder de cura do que na sua capacidade de esconder supostos defeitos. No entanto, seu primeiro contato com o mundo da beleza não foi tão saudável quanto a ligação que ela tem hoje com esse universo. “Um dia, uma colega de sala apontou para as minhas sobrancelhas, disse que elas eram falhadas e que, por isso, era engraçado olhar para mim”, relembra. O comentário maldoso a atingiu profundamente quando criança e a motivou a passar horas na penteadeira de sua avó tentando redesenhar uma sobrancelha “perfeita”.

Demorou bastante para que o estigma desse espaço para sua autoestima poder florescer. Não à toa, nos anos 1990, ser a única menina japonesa da sala de aula também não era fácil. “As pessoas achavam que na minha casa a gente comia inseto.” A desconstrução dessas noções errôneas a respeito de si foi começar quando ela se mudou do interior de São Paulo para a capital, a fim de fazer faculdade. “Saí de um meio ultraconservador para viver em um ambiente muito mais aberto. Tive contato com outras pessoas e passei a enxergar o mundo de uma outra forma”, remonta a maquiadora que, hoje, tem as sobrancelhas raspadas e se diverte criando mil desenhos diferentes no lugar delas.

Kiyomi veste blusa Forever 21 e pantacourt Heloisa Faria. (Thais Vandanezi/ELLE)

“Acho que esse foi um dos momentos mais libertadores para mim”, comenta sobre a época em que simplesmente desistiu de se encaixar nos padrões vigentes de beleza. “A crítica vem de todos os lados: não só por não cumprir com essa série de características e tarefas, mas também por se esforçar exageradamente por cooptar com tudo isso.” Cansada e com a saúde abalada – Kiyomi enfrentou distúrbios alimentares na adolescência por não conseguir aceitar o seu corpo –, ela decidiu começar a se dedicar a melhorar.

Foi para a terapia e colocou o amor-próprio em primeiro lugar na sua lista de prioridades. “É algo em mim que eu não coloco mais em jogo. A moda é cheia de eventos e têm lugares e situações que não me fazem bem – principalmente quando alguém quer dar uma ‘dica amiga’ a respeito de emagrecimento. Se eu sei que vou me sentir mal, dou um jeito de, elegantemente, dizer não”, explica. “Uso esse tempo ao meu favor. Vou caminhar, sei lá, qualquer coisa que eu seja capaz de fazer sozinha, que não dependa de ninguém.” Foram rituais introspectivos como esse que a ajudaram a se fortalecer e dar a volta por cima da visão enganosa que tinha a respeito de sua imagem. “Acho que todo mundo deveria doar 30 minutos diariamente para cuidar de si. No meu caso, é a automaquiagem que executa essa tarefa. Ficar esse tempo todo parada se olhando no espelho faz com que você se valorize cada vez mais”, aconselha.

“Todos deveriam doar 30 minutos diariamente para o autocuidado. Ficar esse tempo todo se olhando no espelho faz com que a gente se conecte e se valorize cada vez mais.”
   
O nome de Kiyomi, na verdade, também é Maira. “Quem é descendente de japonês tem o hábito dar um nome de brasileiro para os filhos, para que, no futuro, eles não sofram nenhum estranhamento. No entanto, Kiyomi significa ‘alegria e beleza eterna’, algo muito mais forte do que Maira, mas a existência de Maira foi importante para que eu chegasse até aqui.” Hoje, Maira está adormecida e, pelo o que pudemos ver na conversa, Kiyomi irradia, com ou sem maquiagem, sob a luz do sol.

Kiyomi usa vestido Renner. (Thais Vandanezi/ELLE)"

trecho integral de matéria da Elle Brasil


Comentários